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Cansado da ditadura e da censura e se precavendo do governo militar que estava à sua caça, lá no final dos anos 60, Chico Buarque se auto-exilou na Europa. O carioca deixou alguns registros na Itália, no idioma local, voltou ao Brasil e um de seus primeiros trabalhos foi “Construção” (1971) – onde estão a clássica “Deus Lhe Pague” e a faixa-homônima. Com a mesma intensidade destas canções nasce, em 2007 no Rio de Janeiro (RJ), o Zander.
O grupo é formado por Gabriel Arbex, Philippe Fargnoli, Leonardo Mitchell e Gabriel Zander, que foi agraciado pelos demais com a escolha de seu sobrenome para batizar o inédito projeto. Nele, os envolvidos se desprendem das amarras de suas bandas atuais e anteriores (como Noção de Nada, Dead Fish, Deluxe Trio e Heffer) para criar algo despojado e novo. Ok, isso poderia soar pretensioso demais, mas não é: “Em Construção”, lançado em SMD (Semi Metalic Disc) – uma mídia idêntica ao CD, porém com custo mais baixo, o que torna o preço final mais acessível – pela Ideal Records, está aí para provar isso.
Maturado por um ano, entre julho de 2007 e julho de 2008, o EP foi lapidado sem pressa ou alarde, com a banda tendo o cuidado para que o resultado final ficasse exatamente como queriam. Para isso, o estúdio Superfuzz, no Rio, foi a base onde tiveram idéias e as colocaram em prática sob produção dos próprios Arbex, Fargnoli e Zander, levando para Fernando Sanchez (baixista do CPM22, que já trabalhou com nomes como Hurtmold, Polara, Garage Fuzz e Ratos de Porão) masterizar no renomado El Rocha, em São Paulo (SP).
“Pólvora” é o estopim, literalmente, onde as guitarras logo remetem ao bom e velho hard rock, com direito a bateria marcante pedindo o uso de um cowbell, mas laconicamente negado (seria farofa demais?). O baixo chega pulsando e a explosão está detonada num misto de Van Halen e Guns N’ Roses, mas não sem transparecer a bagagem underground do quarteto. É onde mora o diferencial, o choque entre o lamento involuntariamente punk com a pegada puramente técnica.
É hora de a luz baixar para a chegada da faixa-título. Ela chega de mansinho, mezzo jazz, mezzo bossa, parece que dá pra ver Zander declarando sua escolha pela música como forma de ganhar a vida. Na hipotética visão ele tem um copo de uísque na mão, o lugar é enfumaçado e sujo, mas as poucas pessoas que lá estão prestam atenção em seu discurso sincero. Uns concordam com a cabeça, outros cochicham, cada um tem seu jeito… O som sobe, é intenso, cheio, e logo retorna ao andamento inicial; mas Zander não agüenta e, mal educado, ainda que com mais melodia que rancor, sem se conter exterioriza seus sentimentos (“não posso mostrar pra você como se constrói, como se destrói”).
O universo feminino, tão visitado e bem ilustrado pelo supracitado Chico Buarque ou ainda pelo punk argentino Fun People, caracteriza “Dezesseis”. Do improviso de um blues-rock à catarse post-harcore, estão agruras adolescentes e vários fantasmas que habitam este período. Monstrinhos, aliás, como os que ilustram o disco e que saíram da cabeça (e mãos) de Xilip – um jovem talento que anda expondo suas belas criações em sites, revistas e outras mídias.
Não dá para deixar de notar o tom escancaradamente pessoal das letras de Zander, que semelhante à arte de Xilip, transpassa beleza, candura, imperfeições e subjetividades. Como “Ar”, ditada pelo baixo e, sobretudo, pela ruptura com o banal. Koellreutter dizia que “não há nada mais planejado que uma improvisação”, e é este clima de desconstrução da estrutura da música que acontece aqui, se fazendo valer de peso, groove e noise – tal qual o Fugazi fez um dia.
O final do disco se aproxima e tudo vai ficando mais lúgubre, mas nada tão drástico. A breve “Battlefield” traz hesitações cotidianas e contagia pela melodia dinâmica, de fácil assimilação, e funciona como uma excelente introdução à veemente “Depois da Enchente”. A faixa seria uma resposta [in]direta à precedente enxurrada de súplicas presente em “Trilogia Suja de Copacabana” (2003). Sem açúcar, portanto mais amarga, ela é digerida lentamente, conforme manda seu andamento; mesmo sem refrão há um quase mantra desafogando os sentimentos mais íntimos.
A história da música é marcada por nomes que, independente do que fizeram, são tidos como gênios, loucos, incompreendidos, subversivos, importunos, mas que, enfim, fizeram a diferença e têm seu incontestável valor. Seja Jobim, Strummer, Gilberto, Biafra, Buarque, Ramone, Ben, Rose, Maia, Curtis, Carlos, MacKaye, Veloso, Cobain… E é por esse caminho, com sua constante [des]construção da música, que Zander segue; mas também Arbex, Fargnoli e/ou Mitchell…
Ricardo Tibiu
Setembro/2008
Tags: Dead Fish, Deluxe Trio, Discoteque, Heffer, Noção de Nada, Reffer, Rio de Janeiro, Zander, Zander Blues