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Em tempos de crise no mercado fonográfico, onde é que a música vai parar? Difícil prever o futuro – há quase uma década o dinamarquês Lars Ulrich já brigava com o Napster –, mas certamente o melhor é se adaptar. A arte está aí para confundir, gerar debate, e não para explicar e ficar restrita a um nicho. E a banda carioca CineDisco sentiu que, diferente da opinião do multimilionário baterista do Metallica preocupado em quantos milhões deixaria de ganhar, o caminho é usar o “mundo virtual” como aliado.
Formado há três anos, indiretamente, sob a forma de um coletivo, o CineDisco tem pouco tempo em atividade, mas o suficiente para angariar seguidores e dar um nó nos tentáculos da indústria cultural/fonográfica. No ano passado lançaram o elogiado “Livros, Discos, Filmes e um Pouco do Delírio Cotidiano”, percorreram o país em apresentações frenéticas e com astúcia foram elaborando formas de driblar a tal crise: investem em um merchandising completamente diferenciado.
Musicalmente falando, o sexteto também foge do usual, envolve rock, pop e o emo (ou o que era considerado como tal) dos anos 90, seja nacional (Elroy, Polara, Noção de Nada e Discoteque) ou gringo (Promise Ring, Get Up Kids, Jimmy Eat World, Cap’n Jazz e Sunny Day Real State). Tudo isso tendo como aliado o Circuit Bending, conforme explicam no encarte de “Baile de Gramofone” (2008), seu aguardado segundo álbum.
Lançado pela Ideal Records, o formato já não cai no lugar-comum; tendo o ouvinte três opções de consumo: a simples (onde por si a palavra “simples” nem caberia, explico adiante), a interativa (que vem com um pote de brinquedos de montar, estilo o bom e velho Lego) e a democrática, onde é só acessar o TramaVirtual (www.tramavirtual.com.br/cinedisco) e fazer o download gratuito.
Por R$ 5, é possível levar para casa a primeira versão citada, onde além das 12 faixas, há o encarte/livreto com 32 páginas adornadas pelas letras, ilustrações com colagens e sobreposições do norte-americano Andrew Zarou, direção de arte de Bruno Pugens e a explicação detalhada sobre o Circuit Bending. Este, já acoplado ao som do grupo no trabalho anterior e, principalmente, nas calorosas apresentações pelo país, nada mais é que a utilização de pequenos circuitos eletrônicos (geralmente de baixa voltagem, como brinquedos e pedais de guitarra) para dar vida “a novos instrumentos e/ou geradores de sons ou ruídos”. Assim como a construção, praticamente, artesanal desses equipamentos, é a arte que envolve o CineDisco, seja gráfica ou musical.
Ao vivo além das intervenções espontâneas (uma das características do Circuit Bending), bolinhas de sabão e balões ajudam a potencializar as melodias dançantes formadas por Victor Hlebetz (voz), André Vieira (baixo), Lelê Gins (guitarra), Mateus Simões (guitarra), Fernando Seixlack (bateria, porém quem a gravou no álbum foi Jonas Cáffaro, atualmente no Matanza) e Sal (que também é do Phone Trio, brinquedos e botõezinhos – gravados por Pedro Pezinho). A propósito essa formação pode ser alterada de acordo com a canção ou situação, afinal de contas pra quê se prender a padrões?
Com o CineDisco é assim, ele abrem o disco com “Encontro em NY”, ótima canção para acompanhar marcando o ritmo com o pé ou palminhas e, mesmo sem um refrão, cantar junto. Na seqüência vem “Som Para Ana”, esta tendo um coro convidativo e letra com cara de “dia seguinte” da anterior: enquanto uma exalta a ansiedade do encontro, a segunda tem o (dis)sabor da partida. Seria ela uma bossa nova eletrificada e com a energia que João, Tom e Vinícius jamais sonharam.
A gravação e produção do velho amigo Gabriel Zander (Deluxe Trio, ex-Noção de Nada) em seu estúdio Superfuzz usando equipamentos, em sua maioria, analógicos – apenas os processos de captação e mixagem foram feitos de forma digital – casou com a clareza necessária para que os brinquedos infantis adaptados, as programações e instrumentos como teclados, theremins e escaleta pudessem brilhar.
O saudável paradoxo entre o underground e o pop pode ser sentindo naquelas que oscilam entre os dois, tais como “Nada Platônica”, “Meus Problemas” e “Quem Precisa da França?” (ficou bom sim!). Antes que alguém responda à questão que deu título a oitava faixa com um Liberté, Égalité, Fraternité inflamado, depois de conferir a Gioconda de Da Vinci, Madame Tereza Cristina atende ao telefone e introduz “Louvre”; que segue harmônica e melancolicamente para um catártico final com um turbilhão de improvisações e a percussão do convidado Renato marcando presença. Isso sem falar que ao passar pela porta do “Apto. 1201” há o gostoso déjà vu de “Livros, Discos, Filmes e um Pouco do Delírio Cotidiano”.
Como um quebra-cabeça com boas referências, o CineDisco monta mosaicos em que peças dessemelhantes acabam se encaixando, sejam elas a força de um hino post-hardcore feito pelo Hot Water Music ou a sutileza e facilidade de brincar com as palavras que o Los Hermanos tinha. Dessa “brincadeira” nascem lindas, cativantes e ainda angustiantes músicas, como “38 Dias”, “Mega Evento”, “O Fim Que Eu Mesmo Escolhi” e “Quando Você Saiu” – impossível ouvi-las sem se envolver e torcer pro Henry Chinaski que habita nelas! Na última citada, há a resistência (será birra?) por parte do anti-herói diante da francesinha Lolita Pille, mas ok, era perante John Fante. Não tem problema se não souber quem são eles, pergunte ao pó… O álbum encerra com um baixo pulsante em meio a sintetizadores com a sorumbática “Plebeu & Sinuca”.
Agora o CineDisco se prepara para espalhar as ruidosas e doces canções pelos quatro cantos do Brasil, assim como faz com as bolinhas de sabão em suas apresentações ao vivo. “Baile de Gramofone” pode ser comprado a um preço acessível (foram 1000 cópias em 15 dias, tá bom pra você?), acompanhado de arte de qualidade e brinquedos de montar (e ouvir) e baixado gratuitamente, mas a tecnologia ainda não permite fazer download de balões coloridos e seis malucos incendiando um palco… Pense nisso!
Ricardo Tibiu
Setembro/2008
Tags: Cinedisco, Lele Gins, Phone trio, Rio de Janeiro